-Quem é o dono deste blog maluco?
-Ei, cara, entra aí e descobre.
-Pôxa, que falta de educação!
-"O caminho do excesso leva ao palácio da Sabedoria."
-Saquei. Até mais!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

TENTATIVA

o vento mexe com os pinheirais.

em avalanche, caem os raios, descobrindo os véus

da terra.

trata-se de uma ambiciosa tentativa de separar

a minha alma(se existe) do essencial:

meia-noite de vitrais, vinhos e cruzes

amparadas por virgens jovens.

Ou, talvez, o contrário,

o ataúde da memória sendo rapinado,

despido- as cortinas se abrindo no início

de um espetáculo teatral.

NÃO CHORO POR

mistério de cisnes e carruagens de fogo,

heras e elixires.

a noite discreta de todas as coisas, a vinda

de um messias.

quando criança, eu conhecia tudo isto.

arrancado o coração do cisne e rotas as rodas,

queimadas as heras e secadas as fontes,

estou aqui,

o espectro indistinto de doces formas banais.

só não choro pela inexistência de um salvador.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

SERPENTE

A porta se abre.

A serpente se vai,

para não retornar.

Mas a Rainha ainda dorme

dentro de sua Câmara

no alto da Torre.

Um brilho deslizante

desce pela escada.

O dia nasce eo sol bate à janela, curioso.

*

Na casa dos sonhos

Os corredores se interlaçam noite

após noite, formando

um trançado complexo.

Às vezes, surgem armadilhas, calabouços,

becos sem saída, túneis

e precipícios.

Gosto desses pontos sombrios

onde tudo é medo e ameaça.

São alternativas ao Infinito Espaço Aberto

que se espalha

num melancólico padrão divergente,

cujo sussurro irônico induz pesadelos.

O labirinto é um demorado jogo

Um anestésico vislumbre

de runas antigas.

A caverna espera.

Seu odor é suave

E adocicado.

Os brilhos à entrada

lembram as

Piras da Inquisição.

Agrada-me ouvir

o crepitar da madeira. As preces e maldições,

para mim, não têm sentido.

A matéria é laborada,

em vias de renascimento.

Meus olhos procuram

através da fumaça

A maçaneta da inadmissível porta dourada.

domingo, 14 de novembro de 2010

RE-ELOGIO

6 horas da tarde e tudo ecoa no mundo.

os sinos dobram, triplicam.

as multiformes expectativas se abraçam

e gotas de sol vestem as praças, as ruas,

os prédios, de verde. e eu aqui, lendo livros,

no que se pode chamar de longa jornada

vida adentro, distribuindo minha solidão

às pobres letras, compartilhando partículas

leves e níveas que pipocam do nada e desaparecem.

este terrível sonho de terminar meus dias como

uma esfinge cansada naturalmente acabará, um dia.

Não existirá a luz, nem a sombra, só um contexto temporal

uma aurora neutra que se inflama enquanto rejuvenesce

silenciosamente.

Virão as estrelas, despidas de atributos, e celebrarão

com grácil atitude as primeiras centelhas que deram

à luz outras centelhas...

num céu de relojoeiro beijado pela musa da suprema harmonia.

talvez seja esta a tendência lógica de todo construto mental,

ou, apenas, afinal, tudo seja trepidante, insinuante,

vivente sonho de adolescência de uma divindade conhecendo

o próprio corpo, diante de um espelho que reflita até mesmo no escuro.

tão logo as letárgicas penas da tarde se percam(18.03.01).................

LEMBRAR

Tiro de minha estante um livro.
Ao tentar repô-lo, percebo
Não lembrar mais de onde o tirei.

O livro real, o livro imaginado
São o mesmo, independentemente
Do lugar?

O vazio que resta, ou que se foi
Desconhecido para minha mente
embotado como um lótus seco

perece, com o primeiro suspiro
Da noite. Com vagar, me aproximo
de mim mesmo.

Nada disso tinha a ver,
afinal,
Com estantes ou livros.