-Quem é o dono deste blog maluco?
-Ei, cara, entra aí e descobre.
-Pôxa, que falta de educação!
-"O caminho do excesso leva ao palácio da Sabedoria."
-Saquei. Até mais!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

mare


dos extremos do oceano
onde música é distância

vêm estas luzes baças
movendo-se devagar

por várias luas demoram
neste quimérico ritual

desenham mapas portulanos
saltam fundem-se no ar

naus ou anjos que sejam
trazem mais medo ao povo

depois somem, ganham o alto
nenhuma mensagem deixam

sonhei isto tantas vezes
que perdi a esperança

não há motivos para crer
em significado algum

acordo gelado na sentinela
meu navio tem colo na calmaria

é assim a vida de um nauta:
angústia de angústia é arauta.


fantasia

eônicos suspiros das virgens do caos
ébrio choro da mãe disfuncional da ordem
clepsidra enlouquecida

as bolotas do carvalho crescem
nas margens do lago turvo
por onde as crianças brincam,
observadas pelos centauros velhos.

temporada de caça aberta,
haverá chance para os unicórnios?

minhas não-irmãs fugiram para o oráculo.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

polititica



O Reino não é feito
de Poder e Glória

A pedra friável, esquecida
é a que constrói a história

Sabá e Samarcanda
são fumo de narguilé

Assim como outros reinos,
não tomaram pé.

Nas piscinas mouriscas
nas termas romanas

Há sempre homens
Senadores ou sonhadores

Prontos pra sucumbir
à  lama da ambição

A monarquia é fraca
Também o Estado-nação;

A musa nua é estranha
A lua não aquece ninguém

Lutas por liberdade ou terra?
O Império te desterra.

Somos caniços pensantes
Mas a razão não nos dobra

O medo a luxúria são
obus e bala de canhão

avançamos a infantaria
brindamos à tirania

homens-lobos vorazes de nós mesmos
pensamentos são flato e tenesmos.


evelyn waugh

faz tempo que te espero
 minha casa é grande e vazia
Leonardos e Renoirs pelas paredes
 jornais do tempo da Guerra Fria.

 Os sons que vêm de fora
se misturam com o do fonógrafo
 Patos e um galo velho cantam Sinatra
O cheiro do chá brilha em boa hora.

A mesa circunavega o mundo
As velas pintam torsos no teto
 eu aceito solenemente o soneto:
 amargo horário da solidão.

 Vago princípio de chuva fina
Recorda-me nossos beijos à fonte
 Quando fugiste para não retornar
Alma, de tua viagem sibilina...

o que te atraiu à pequenez e finitude?
 o que te chamou ao orbe subjacente?
 Não podes pegar o primeiro galeão
E vir depressa de teu obscuro oriente?



terça-feira, 5 de julho de 2011

eco poema


por onde eu passo
a barreira do tempo espaço
deslinda-se do conceitual
retorna a alma animal

a queimada prossegue
o filhote não consegue...
morre a onça o tapir
o meu e o teu porvir

somos rios, arbustos pedras
dotados de neocórtex
triste flor humana, não medras
toda parte mais mortes.

terra teus veios de ouro e cristal
óleo de pedra e etc e tal
definham, o caldeirão derrama
homem e desejos conclama

estamos prestes a conhecer
o isolado fim do contínuo ser
banidos de nós mesmos a chorar
sem ar, água terra fogo e lar.


sábado, 2 de julho de 2011

angst


olho o relógio
parece que é sempre
10:12
am ou pm... que seja!
isso não me informa nada.
o tempo subjacente à realidade
a grande e imunda casa de máquinas que só Dante viu
o desassossego o medo a angústia a culpa os sonhos rotos
fluindo de alto a baixo mercê dos blocos subquânticos
os columbários com as cinzas merovíngias
tudo reduzido a uma hora qualquer.
não me olhe, relógio NEOTRON QUARTZ poeirento de 1,99...
a energia que te move pode acabar
a pilha alcalina Gold de 1,5 volts somos todos nós.
Lavoisier disse que tudo se transforma
mas o tonto francês não pensava em larga escala.
eu quero detonar a essência turrona do self
sob meu comando tudo pára:
com tinta cor de estrela eu reprogramo o universo
vejo-me liso, plano, adimensional
desesferado.
10:35

sexta-feira, 1 de julho de 2011

casa do zodíaco


o monte vai descolorindo
no uniforme cinza se sumindo
cria saudade a casa que habitei
nos sonhos de infância que sonhei

lá no alto da escarpada
onde corta o vento e a geada
frequentei pessoas interessantes
... se os tempos fossem como dantes...

hoje os modos e as maneiras
são tão tristes, até o circo e as feiras.
não têm mais graça os seres humanos...
é tudo falácia, correria, enganos.

de todos aqueles personagens de ouro
-o Cuco, os Gêmeos, o Asno e o Touro
o Rei e a Rainha, o Louco, a Lua e o Sol
a Bela Morte e a Gata Branca- eis o rol,

só me restaram as constelações no céu
símbolos e números num imenso anel.
a casa dos amigos que uma vez tive...
rolou um belo dia, da idade no declive.